Resumo

A acirrada disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro definirá os rumos da América Latina e a influência de Donald Trump na região. Uma vitória de Flávio consolidaria a onda de direita no continente, alinharia o Brasil às políticas de segurança e comércio dos EUA e ameaçaria metas ambientais. Já a reeleição de Lula representaria uma sobrevida para a esquerda latino-americana contra a hegemonia de Washington, marcando o ato final da trajetória política do atual presidente.

O segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula tem resultado incerto e possíveis repercussões pelo continente

Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

No segundo turno deste domingo (25/10), o Brasil irá eleger, entre Lula e Flávio Bolsonaro, muito mais que um presidente. Os eleitores irão determinar o rumo político de toda a América Latina e a influência dos Estados Unidos no continente.

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É difícil imaginar uma eleição mais transcendental para a região como a que será decidida pelos 158 milhões de cidadãos brasileiros com direito a voto.

Existem extremos contrastes entre o direitista Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, que surpreendeu ao vencer o primeiro turno, e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-sindicalista de 80 anos e referência da esquerda na América Latina.

A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno, no dia 4 de outubro, foi de 1,9 ponto percentual em relação aos votos válidos. Foi a menor vantagem registrada em um primeiro turno presidencial desde a volta do Brasil à democracia. E algumas pesquisas mostram empate técnico antes da votação.

Flávio tenta chegar pela primeira vez à Presidência, antes exercida pelo seu pai, o ultradireitista Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado após perder a reeleição em 2022 para Lula, que agora busca seu quarto mandato.

Flávio propõe o liberalismo econômico, redução de impostos e pulso firme em questões de segurança. Já Lula defende ampliar o papel do Estado, fortalecer as políticas sociais e ampliar os direitos dos trabalhadores.

Seja por suas grandes divergências, pela conjuntura especial do continente ou pelas enormes dimensões do Brasil, especialistas alertam que este segundo turno irá repercutir muito além das fronteiras do país.

"É uma eleição crucial para a região", afirma à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o professor de ciências políticas Edgar Franco-Vivanco, diretor do Centro de Eleições da América Latina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

Existem três motivos que explicam a relevância destas eleições.

1. A onda de direita

As sete eleições presidenciais realizadas na América Latina de 2025 para cá foram vencidas por candidatos de direita, um fenômeno insólito que receberia seu principal impulso caso Flávio seja eleito.

"O Brasil não é apenas o maior país [da América Latina] em termos de população, mas também a economia mais importante", explica Franco-Vivanco. "Por isso, sua eventual união a esta onda de direita geraria muitas mudanças."

Flávio Bolsonaro exibiu uma enorme tesoura, representando seu desejo de cortar os gastos públicos no Brasil, como fez seu aliado Javier Milei com uma motosserra na Argentina

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Flávio traz diversas semelhanças com os direitistas radicais que hoje governam a região, aliados ao presidente Donald Trump.

Seus planos para a segurança pública incluem a mobilização de militares contra grupos criminosos e a construção de prisões de segurança máxima. Elas são inspiradas no Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), construído para membros de gangues pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, apesar das denúncias de grandes abusos ocorridos no local.

Flávio também prevê a aplicação de um ajuste fiscal com drásticos cortes de gastos, como vêm fazendo o presidente da Argentina, Javier Milei — que participou do lançamento da campanha do candidato brasileiro —, e o presidente do Chile, José Antonio Kast.

Conjuntamente, este poderá constituir o maior esforço de redução do Estado em países da região, desde as reformas neoliberais do final do século passado.

Flávio também evitou explicar como procederá ao corte dos gastos públicos de 1,5% do PIB que ele defende. Alguns economistas duvidam que o ele consiga atingir esta redução sem diminuir os gastos sociais, mesmo tendo maioria no Congresso Nacional.
"Se ele decidir tocar no salário mínimo, nas aposentadorias e nos programas sociais, o país será um caos", defende Mônica de Bolle, principal pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional. "Existe nas ruas uma porção de pessoas destacando que não irão aceitar um ajuste por este caminho."
Os partidários de Lula saíram às ruas no Brasil após o primeiro turno das eleições para expressar seu apoio ao atual presidente e sua rejeição a Flávio Bolsonaro
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A eleição poderá influenciar até mesmo o meio ambiente na região.
Especialistas dizem que, sob um eventual governo de Flávio, o desmatamento da Amazônia poderá aumentar, como ocorreu durante o mandato do seu pai, com a redução dos controles governamentais e maior tolerância às atividades agropecuárias ou mineradoras.
Por outro lado, durante o atual governo Lula, a destruição da maior floresta tropical do planeta diminuiu este ano, atingindo o menor nível registrado em quase quatro décadas, segundo dados oficiais.
A Avaliação da Declaração Florestal reúne grupos civis que monitoram o desmatamento e indicou em outubro que "as mudanças derivadas das recentes eleições na Colômbia e no Peru, bem como as próximas eleições no Brasil, poderiam ameaçar a proteção das florestas em países que passaram por avanços recentes".
"A Amazônia engloba diversos países e, por isso, o avanço da extrema direita é relevante, pois ela não tem agenda ambiental compatível com as ideias de preservação do meio ambiente e transição energética", declarou De Bolle à BBC News Mundo.
No âmbito comercial, Flávio defendeu que o Brasil "se libere das amarras do Mercosul", buscando acordos com países como os Estados Unidos, como fez Milei na Argentina — que integra o bloco, ao lado do Paraguai e do Uruguai —, gerando críticas do governo Lula.
2. O peso de Donald Trump na região
Um eventual triunfo de Flávio também permitiria a Trump estender a quase toda a América do Sul o predomínio hemisférico que ele busca desde que voltou à Casa Branca, em janeiro do ano passado.
Sob seu mandato, os Estados Unidos ameaçaram e castigaram governos da região; interferiram em eleições de alguns países a favor dos seus aliados; atacaram a Venezuela para capturar seu então presidente, Nicolás Maduro, e controlar a indústria petrolífera do país; e mataram mais de 230 pessoas ao bombardear navios em águas do Caribe e do oceano Pacífico em nome da guerra contra as drogas.
"Desde o início de 2025, observamos esta presença cada vez mais violenta e agressiva dos Estados Unidos na região. E o Brasil é uma peça fundamental", destaca a professora de relações internacionais Carolina Pedroso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O presidente americano, Donald Trump, criou uma aliança chamada Escudo das Américas para promover os interesses dos Estados Unidos junto aos seus aliados na região, que poderá vir a incluir o Brasil
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Da mesma forma que o México, o Brasil, até agora, ficou à margem da aliança criada por Washington junto com 14 países do continente, chamada de Escudo das Américas. Seu primeiro objetivo declarado é combater as organizações de narcotraficantes.
Alguns dos associados americanos, como o Equador e a Colômbia, aceitaram que os Estados Unidos realizem operações militares conjuntas nos seus territórios.
O governo Lula observou com receio esta ofensiva de Washington, bem como a inclusão do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações consideradas "terroristas", entendendo que a medida poderia abrir as portas para ações dos americanos nas fronteiras ou dentro do próprio território nacional.
"O Brasil não cabe no quintal de ninguém", declarou Lula à Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em setembro. O presidente também alertou sobre "tentações hegemônicas" na região.
Por outro lado, Flávio declarou, em recente conversa com o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que deseja fazer parte do Escudo das Américas "para combater as facções narcoterroristas", em cooperação com os países que integram a aliança.
Jair Bolsonaro foi aliado próximo de Trump. No ano passado, o presidente americano pressionou o Brasil, sem sucesso, para deter o julgamento do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, defendendo que se tratava de perseguição política.
"Uma derrota de Lula, neste sentido, seria uma grande vitória para Trump, para essa agenda [...] de aumentar a presença militar e econômica dos Estados Unidos na região", segundo Pedroso.
Muitos bolsonaristas pedem o apoio do presidente americano, Donald Trump, na disputa com Lula
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A professora destaca que um triunfo de Flávio Bolsonaro também poderia facilitar a promoção de interesses americanos no Brasil, como a mineração de terras raras, que incluem elementos fundamentais para a alta tecnologia e para a disputa global dos Estados Unidos com a China.
O Escudo das Américas já indicou que busca ampliar sua agenda para outras áreas estratégicas.
Os países da coalizão declararam em setembro sua intenção de empreender ações para fortalecer "a cooperação econômica" e "proteger as cadeias de fornecimento de minerais críticos, através de um abastecimento diversificado e confiável".
3. O ato final de Lula
A eleição brasileira também determinará o ato final do presidente Lula, um dos políticos mais importantes da América Latina no século 21.
Prestes a completar 81 anos de idade, o homem que nasceu na pobreza, foi torneiro mecânico, líder sindical durante a ditadura militar e, em 2002, tornou-se o primeiro ex-operário a ser presidente do Brasil, indicou que esta é a sua última eleição.
Seus dois primeiros mandatos chamaram a atenção do mundo e orientaram outros governos de esquerda, devido aos programas sociais que retiraram milhões de brasileiros da pobreza, em meio a um boom econômico gerado pelos altos preços das matérias-primas.
Diferentemente de alguns líderes latino-americanos de esquerda que o presidente brasileiro evitou criticar com firmeza, Lula respeitou as regras democráticas e deixou a Presidência em 2011 com popularidade de mais de 80%.
Mas os governos do PT também sofreram escândalos de corrupção. O próprio Lula passou 19 meses preso entre 2018 e 2019, devido a uma condenação anulada posteriormente por erros processuais e por falta de imparcialidade do ex-juiz Sergio Moro, responsável pela condenação.
Figura importante da esquerda latino-americana, Lula indicou que esta eleição poderá ser a última da sua carreira política
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Em 2022, Lula voltou ao poder aliado a setores da centro-direita, frente aos temores de uma guinada autoritária do então presidente Jair Bolsonaro, aliada ao drama de uma crise econômica e à devastadora pandemia de covid-19.
Desde então, o Brasil recuperou certa normalidade e estabilidade, mas sem os altos índices de crescimento econômico dos primeiros mandatos de Lula, além dos preocupantes níveis de endividamento do governo e das famílias.
No primeiro turno das eleições deste ano, Lula manteve forte apoio dos mais pobres, mas perdeu votos em quase todas as classes sociais em relação a 2022.
Este resultado indica que, para o presidente octogenário, está cada vez mais difícil sustentar sua antiga conexão com os brasileiros e vencer a onda de votos contrários aos partidos no poder que se espalhou pela América Latina.
Uma vitória de Lula neste domingo teria, para ele, um sabor especial e manteria sob o controle da esquerda o governo dos dois países mais populosos da América Latina: o Brasil e o México.
"Seria um dos triunfos mais importantes de Lula na sua longa carreira", defende Franco-Vivanco. "Dar a virada em três semanas, do primeiro para o segundo turno, parece muito complicado. Mas talvez só um político como Lula poderia fazer isso. Definitivamente, seria um respiro para a esquerda."
Do contrário, o presidente brasileiro deixaria o poder derrotado. E o desamparo inundaria a esquerda latino-americana.


