O Ministério Público Federal (MPF) pediu a absolvição de um empresário do ramo de usinagem usado pelo Comando Vermelho (CV) para a fabricação de fuzis no estado de São Paulo. A procuradoria considerou que não há elementos suficientes para comprovar o envolvimento doloso de Wendel dos Santos Bastos na organização criminosa.Bastos atua no ramo de usinagem há mais de 20 anos e tem residência fixa e vínculos familiares em Americana, no interior de São Paulo, segundo a defesa. Ele era o gestor e responsável pelo galpão industrial e parque fabril de usinagem localizado em Santa Bárbara d’Oeste, também no interior paulista, e foi investigado no âmbito da Operação Forja.O imóvel e os maquinários de Santa Bárbara d’Oeste foram arrendados para a empresa de fachada Kondor Fly Parts e utilizados pela organização criminosa liderada por Silas Diniz Carvalho, apontado como articulador do CV, para a montagem de uma fábrica clandestina de fuzis, segundo a investigação.O MPF chegou a pedir a prisão preventiva de Bastos, mas a Justiça Federal negou o pedido considerando a primariedade, os bons antecedentes, a residência fixa e os vínculos familiares do empresário.Mais tarde, a procuradoria deixou de insistir na reclusão do investigado e, após as alegações finais, representou pela absolvição dele, conforme manifestação dessa segunda-feira (28/9).Em relação aos demais acusados, o MPF manteve o pedido de condenação e a permanência da prisão preventiva. Sete envolvidos estão presos.CV criou estrutura para fabricar fuzis e pistolas Glock em SPIntegrantes do CV migraram a estrutura que fabricava fuzis e outras armas em Belo Horizonte, Minas Gerais, desmantelada após a Operação Wardogs, em 2023, para o interior de SP.O esquema era chefiado por Silas Diniz Carvalho, o Gordão ou Mikhail. Ele coordenava a instalação da fábrica, a validação de maquinários e a contratação de pessoal, mesmo custodiado no Complexo Penitenciário de Gericinó, no Rio de Janeiro.A principal linha de produção foi instalada em Santa Bárbara d’Oeste, no galpão da empresa Kondor Fly Parts Indústria e Comércio de Peças Aeronáuticas Ltda., pertencente a Gabriel Carvalho Belchior, atualmente foragido nos Estados Unidos.A operação funcionava sob a máscara de produção de peças para aviação. Os operadores utilizavam centros de usinagem de Controle Numérico Computadorizado (CNC), tornos digitais e fresadoras de alta precisão.O grupo também usava softwares industriais para desenhar e usinar componentes de fuzis da plataforma AR (AR-15, M4, M16) e HK G3, além de projetos para pistolas Glock. Com a técnica de engenharia reversa, eles copiavam peças originais sem necessidade de plantas oficiais.A quadrilha comprava materiais de fornecedores em Campinas e região, usando CNPJs de terceiros para ocultar o destino real, e mantinha rotas de importação de kits e componentes de fuzis dos Estados Unidos, como peças do HK G3, compradas online e enviadas via encomendas postais.Para escoar o material até o Rio de Janeiro, a quadrilha utilizava motoristas chamados de “mulas técnicas”, que viajavam de madrugada em carros alugados ou de terceiros.As armas eram desmontadas em lotes pequenos e transportadas de maneira oculta em caixas de ferramentas, mochilas ou sacolas para dificultar o flagrante nas rodovias. Quando chegavam ao Rio, o armamento abastecia favelas dominadas pelo CV, como o Complexo do Alemão e a Rocinha.Segundo a Polícia Federal (PF), o grupo fabricava até 10 fuzis por dia, que eram comercializados no mercado ilegal por valores entre R$ 8 mil e R$ 18 mil. Leia também São PauloBando contratado pelo CV expandiu linha de produção de fuzis em SP São PauloComo preso do CV no RJ chefiava fábrica de fuzis em SP com peças dos EUA São Paulo“Mulas técnicas” operavam rota dos fuzis de fábrica contratada pelo CV São PauloEquipe de metalurgia do CV projetava e fabricava peças de fuzis em SP Defesa de empresário busca absolvição integralA defesa de Wendel dos Santos Bastos afirmou que ainda deve apresentar as alegações finais à Justiça, confiando “no exame técnico e sereno do Poder Judiciário e no consequente desfecho de absolvição integral dos crimes atribuídos, evitando a responsabilização indevida de pessoa desvinculada de qualquer ilícito”.O advogado Dinael de Souza Machado Júnior, afirmou acompanhar o caso desde o início “de maneira próxima, técnica e diligente, reiterando que sempre sustentou a inocência de seu cliente”.“Ao longo de toda a tramitação do processo criminal, foram adotadas diversas medidas fundamentais para resguardar as garantias de Wendel, afastando com êxito requerimentos que visavam à decretação de sua prisão preventiva e, posteriormente, à imposição de monitoramento eletrônico”, disse a defesa.Machado Júnior destacou ainda que “o recente pronunciamento do Ministério Público Federal está em sintonia com absolutamente todos os elementos de prova produzidos nos autos”.








