Faltam poucos dias para o segundo turno, e muita família já nem se fala. O pai não aceita que o filho vote diferente. A irmã bloqueou o irmão no WhatsApp. O almoço de domingo virou campo de batalha.Por que dói tanto quando alguém da nossa família escolhe outro candidato? Porque, no fundo, a gente queria que ele votasse como nós. Que pensasse como nós. Que fosse uma cópia nossa.E é aí que entra o vírus. Essa dinâmica não aparece só na eleição. Ela explica uma coisa ainda mais antiga: por que a gente quer tanto ser perfeito e ter razão.Um vírus não tem vida própria. Ele entra numa célula e obriga essa célula a fazer cópias dele. A célula para de ser ela mesma. Passa a trabalhar para o vírus. Nós fazemos a mesma coisa com quem amamos.Cada um de nós carrega na cabeça um padrão de como as coisas devem ser. Um modelo do que é certo. E, no fundo, a gente acha que esse padrão é perfeito. Que nós somos perfeitos. Que nós temos razão.Um pai pode ter aprendido que filho tem que ser aluno excelente. Isso não é um sonho para o filho. É o padrão do pai. É a carga genética dele, entre aspas.O pai não quer um filho perfeito. O perfeito é ele, o pai. O que ele quer é que o filho represente esse pai perfeito. Que leve as ideias dele adiante.Então ele leva o seu padrão até o filho. Mostra. Ensina. Aconselha. Cobra. O filho tem que absorver. Tem que reproduzir o pai. Igual à célula invadida pelo vírus.Aqui está o ponto central.A perfeição é o valor que eu me dou para poder ser dono do outro. Se eu sou perfeito, se eu tenho razão, o outro tem a obrigação de ser como eu. De me reproduzir. De me representar.Quanto mais perfeito eu me acho, quanto mais razão eu acho que tenho, mais o outro tem que ser do jeito que eu quero.E tem uma conta nisso.Eu dou ao outro o meu melhor. Meu conselho. Meu exemplo. Minha perfeição. E cobro de volta. O pagamento é ele me representar.Quando o filho não segue o meu padrão, ele não está pagando o preço que eu cobrei. Fica me devendo.Se ele me representa, ele é meu. Minha posse está garantida. Se ele não me representa, eu sinto que perdi. E essa perda dói. Vira mágoa. Vira briga. Vira cobrança.Às vezes, sem perceber, o filho que não segue o meu padrão vira quase um inimigo dentro de casa.Querer ser perfeito e ter razão dentro de uma relação é tóxico.Quanto mais perfeito eu quero ser, quanto mais razão eu quero ter, menos espaço o outro tem para ser ele mesmo. O outro não nasceu para ser cópia minha. Ele não é uma célula para eu me reproduzir dentro dele.O primeiro passo é enxergar.Perceber quando eu estou exigindo que o outro seja eu. Quando o meu conselho é, na verdade, uma cobrança. Quando a minha decepção é, na verdade, uma perda de posse.Não passamos de vírus enquanto não enxergamos isso. Quando enxergamos, podemos largar. E deixar o outro ser quem ele é.Domingo, cada um vai votar em quem quiser. Inclusive o seu filho, o seu pai, o seu irmão. O voto dele não é uma traição. É só a prova de que ele não é uma cópia sua.E, na segunda-feira, seja qual for o resultado, o almoço de família ainda pode acontecer.Aceita que dói menos.✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp








