Cana-de-açúcar vira curativo líquido em pesquisa da Unicamp.

Pesquisadores da Unicamp criam curativo líquido biodegradável a partir da cana-de-açúcar para substituir ataduras e reduzir resíduos
Pesquisadores da Unicamp criam curativo líquido biodegradável a partir da cana-de-açúcar para substituir ataduras e reduzir resíduos · Imagem: Source: g1.globo.com

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um curativo líquido que forma uma película transparente sobre feridas e é absorvida pelo organismo durante o processo de recuperação.

O produto consiste em uma solução atóxica e biodegradável criada a partir da cana-de-açúcar, e é capaz de substituir gazes, ataduras e outros curativos tradicionais. A aplicação é feita diretamente sobre a pele por spray ou por um dispositivo portátil.

Segundo os pesquisadores, estudos pré-clínicos indicam que o curativo pode reduzir pela metade o tempo de cicatrização em comparação aos métodos convencionais.

- ✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp

A tecnologia foi concebida para uso em saúde humana e animal. Segundo os pesquisadores, ela pode representar uma alternativa em situações nas quais métodos convencionais apresentam dificuldades de adesão ou manutenção, e tem potencial para aplicação em dermocosméticos, revestimento de implantes e próteses e sistemas de liberação controlada de medicamentos.

Os estudos pré-clínicos foram realizados em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), e a próxima etapa envolve os procedimentos regulatórios necessários para testes em pacientes. O curativo líquido tem pedido de patente depositado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com titularidade compartilhada entre a Dermbio Biotech, empresa-filha da Unicamp, e a universidade.

Da cana-de-açúcar ao curativo

O desenvolvimento da tecnologia começou com pesquisas voltadas ao aproveitamento da cana-de-açúcar para a produção de materiais de uso médico.

Segundo o professor Rubens Maciel Filho, coordenador da pesquisa, o grupo utilizou processos de fermentação para transformar o açúcar em ácido lático, substância compatível com o organismo humano.

Segundo os pesquisadores, um mililitro da solução inserida em uma caneta aplicadora pode render centenas de aplicações, e estudos pré-clínicos indicaram diminuição de 50% no tempo de cicatrização.

A equipe que criou o curativo é formada por Rubens Maciel Filho, André Luiz Jardini Munhoz, Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon e Ana Flávia Pattaro.

Pesquisa da Unicamp desenvolveu curativo líquido a partir da cana-de-açúcar — Foto: Reprodução/EPTV

Como funciona

A química Ana Flávia Pattaro explica que o material permanece sobre a pele durante o processo de recuperação, e depois é absorvido pelo corpo.

Ela afirma ainda que a tecnologia também apresentou resultados satisfatórios na qualidade da recuperação dos tecidos. "O formato da cicatrização também é adequado e tem todas as características necessárias para uma boa cicatrização", explicou.

De acordo com os pesquisadores, o diferencial da invenção está em uma combinação de polímero biodegradável com um sistema de solventes de origem renovável e não tóxicos, capaz de transformar o material em líquido sem comprometer a segurança da aplicação direta sobre a pele.

"Estamos formando um filme inteligente, no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato para acelerar a cicatrização da ferida", disse Maciel Filho.

Menos trocas e menos resíduos

Além de dispensar gazes e ataduras, a película é resistente à água, transparente e pode ser utilizada mesmo em regiões de articulação, como joelhos e cotovelos. Isso permite acompanhar visualmente a recuperação sem remover a proteção.

Outra vantagem apontada pelos pesquisadores é a redução do risco de contaminação durante a troca dos curativos. "O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada", afirmou Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon.

Segundo a pesquisadora, como o material é absorvido pelo organismo durante a cicatrização, também há redução na geração de resíduos biológicos.

VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região

50 vídeos